Opinião

A parcela dos cartolas

*Capa: Mauricio Bento/Líder Esportes/Orientec

É fato que o XV de Piracicaba pode ser rebaixado para a Série A3 do Campeonato Paulista. As críticas, como foram com os elogios no segundo semestre do ano passado, geralmente se dividem entre diretoria e elenco. Não dá para culpar o treinador, pois Vica chegou há quatro jogos e não teve qualquer participação na construção do plantel. Cléber Gaúcho talvez tenha algo de responsabilidade, mas, com ele, o time não frequentou em momento algum a zona de rebaixamento. É o álibi perfeito. Efetivar Ronaldo Guiaro foi pura precipitação dos dirigentes.

Sobre os jogadores, não há mais do que dizer, além do que foi dito: há aqueles que se entregam, cumprem seu papel e acabam prejudicados pelo fato de o futebol ser um esporte coletivo, em que um não resolve o problema de 11; há o grupo de atletas que batalham para ficar com a bola, mas é exatamente com a bola que provam não ter capacidade para disputar a fraquíssima segunda divisão do futebol paulista; e há ainda a terceira turma, a do fundão, formada por boleiros que dão a sensação de que pouco se interessam pelo que está acontecendo.

Pois bem, e a diretoria? A diretoria, sem margem de erro, é a maior culpada pela situação em que o XV se encontra. Igualmente, a direção foi a maior responsável pelo título da Copa Paulista e pela vaga na Série D do Brasileiro. Há dois personagens centrais quando se fala de diretoria: Celso Christofoletti e Beto Souza, que na verdade não faz parte da diretoria, pois tem cargo remunerado e por isso é nomeado gestor de futebol. Sobre o presidente, que é o comandante da navegação, há pouco a acrescentar além do que já foi dito. A crítica é sobre a postura: deveria chamar publicamente a responsabilidade, tirar o peso do vestiário, fazê-los jogar por ele. A distância nunca é positiva; menos ainda com o clube mergulhado em crise.

De Beto Souza, é importante ressaltar antes de qualquer comentário: as comparações entre ele e o antecessor não cabem. Renato Bonfíglio nunca foi remunerado. Beto Souza é. O primeiro é um eterno apaixonado; o segundo é profissional. A cobrança deve ser maior sobre Beto Souza no que diz respeito às contratações. Com a bagagem que tem no futebol, deveria saber que o elenco campeão da Copa Paulista precisava de reforços para a Série A2. A imprensa foi quase unânime sobre isso antes da competição. Dinheiro, havia. Inexplicável encerrar o campeonato sem preencher o número de inscrições; erro inadmissível, digno de repensar a continuidade do trabalho. Não há justificativa também para, precisando de gols, contratar Bruno Santos e Carlos Alberto, que não fazem gols. Baixaria.

A questão envolvendo Renato Bonfíglio é mais apimentada porque transcende o papel dele como dirigente; seja diretor de futebol ou vice-presidente, cargos que recentemente ocupou. As críticas foram ou pareceram mais pesadas não pelo histórico como mandatário, mas pela postura, pelas gafes reincidentes. Renato Bonfíglio dava manchete a cada dia que falava. São vários episódios que não há como deletar: a famosa frase de que o clube caiu porque faltou ‘putaria’, a ida ao trabalho com a camisa do Palmeiras, a referência aos torcedores como ‘meia-dúzia de bandidos’ ou ainda o pós-Osasco, em 2009. A comparação entre A e B são oportunas apenas para as viúvas de Renato Bonfíglio, sumidas em 2016, escancaradas em 2017.

O que mais preocupa é que o hipotético rebaixamento poderá trazer graves consequências ao clube. O discurso de que administrativamente o XV vai bem, obrigado, pode entrar pelo ralo. Cair dois anos seguidos significa perder credibilidade e, consequentemente, perder dinheiro. Saúde financeira debilitada pode ser traduzida em demissões e cortes de gastos, que afetarão diretamente nos departamentos extra-campo. Pois manter a estrutura que o XV tem hoje na Série A3 é inviável, inexplicável e provavelmente impagável, além de injustificável. Não cair é lucro para a diretoria, que terá de rever o rumo da caminhada independente do que vier a acontecer contra a Portuguesa.

Leonardo Moniz é jornalista e editor de conteúdo do LÍDER

Início