Corpo & Mente

A autoconfiança no esporte

A autoconfiança no esporte - Cassiano de Santis

O ano de 1954 entrou para a história do atletismo pelo novo recorde estabelecido por Roger Bannister na corrida de milha, completada em 3min59s. O feito é especial porque, até então, atletas, treinadores e fisiologistas acreditavam ser humanamente impossível correr 1.600 metros em menos de quatro minutos, o que parecia ser confirmado nas diversas provas em que corredores atingiam tempos muito próximos dessa marca, mas jamais abaixo dela.

A performance é, em grande parte, condicionada à autoconfiança

O mais impressionante, porém, aconteceria na corrida seguinte, quando uma dezena de atletas repetiria o feito de Bannister. Aparentemente, atletas física e tecnicamente preparados para atingir aquele tempo tinham seus desempenhos limitados pelas próprias crenças; quando estas foram modificadas, o desempenho também aumentou.

Nuno Cobra, preparador físico de Ayrton Senna e de nosso bem conhecido Waldemar Blatkauskas, tem essa convicção: segundo ele, atletas brilhantes fracassam enquanto outros, menos talentosos, atingem grandes feitos porque nos momentos decisivos as pessoas são o que acreditam ser. A performance é, em grande parte, condicionada à autoconfiança. Embora haja nisso alguma licença poética, cada vez mais os estudos em esporte e cognição apontam nessa direção.

Investigações sobre o sucesso em diversas áreas apontam que quando estão presentes os recursos para realizar determinada tarefa (por exemplo, uma pessoa em condições físicas suficientes, espaço adequado e orientação para treinamentos) e o desejo de cumpri-la, o principal fator para determinar o êxito é a autoconfiança de quem a realizará. Assim, trabalhar os aspectos psicológicos do atleta pode ser tão importante quanto desenvolvê-lo física, técnica ou taticamente.

PREPARAÇÃO

Porém, atenção: não se trata de um otimismo ingênuo, acreditando que todos poderão chegar ao topo do mundo. É um exercício de autoconhecimento mais profundo, em que se consegue visualizar um objetivo claro e de que formas as habilidades presentes e potenciais podem levar a atingi-lo. A confiança não deve estar centrada num resultado competitivo pontual, mas em todas as etapas da preparação até os momentos decisivos.

Esse princípio aplica-se, também, a atletas amadores e a quem busca mais qualidade de vida na atividade física: o que se observa, com frequência, são pessoas que desejam perder peso (ou seja, há a motivação) e, muitas vezes, procuram ajuda profissional para isso (os recursos principais), mas de antemão duvidam de sua capacidade de atingir seus objetivos. Têm, como os corredores da década de 1950, um potencial imenso dentro de si, mas aprisionado em suas crenças.

Cassiano de Santis é psicólogo com formação em Terapia por Contingências de Reforçamento

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