Opinião

7 metros

Não vou fazer firula, porque eu não estava em Itatiba no domingo passado. E, sem estar lá, não vi o 15 de Piracicaba perder a decisão da Liga Estadual de Handebol para Itatiba, por 29×28. Importante dizer que é 15 de Piracicaba, não XV. É assim que é chamado o time da Associação Desportiva de Handebol, favor não confundir com a equipe de futebol, não há qualquer ligação. Pois bem, de volta ao jogo. Não requer grande inteligência afirmar que a final foi equilibrada. Como a informação é restrita para eventos como a Liga Estadual, cabe ao jornalista que não viu o jogo colher relatos. É exatamente aí que eu quero chegar.

O duelo lá em Itatiba acabou empatado e foi para a prorrogação. O 15, que não pintava como favorito, jogou de igual para igual contra um adversário que estava em casa e se classificou para a fase mata-mata em primeiro lugar. Resumindo: numa condição adversa, o 15 brigou cabeça-a-cabeça com a melhor equipe ao longo do ano. O campeonato, então foi decidido na prorrogação. No tempo extra, a tônica foi a seguinte: Itatiba abria um gol de diferença, Piracicaba empatava. Na última bola, a história mudou.

Com 29×28 para Itatiba, o 15 de Piracicaba teve a chance de empatar de novo com um tiro de sete metros. Pense comigo na pressão que caiu nos ombros do arremessador: um erro e o campeonato estaria acabado. Coube a Wesley a responsabilidade. Pausa no texto. Eu conheço Wesley de ‘vista’. Nunca conversei mais do que cinco minutos com ele, embora o tenha visto e cumprimentado inúmeras vezes. Não estou habilitado para dizer se é bom, ótimo ou excelente jogador. Bom, no mínimo, ele é. Fosse ruim, aqui não estaria. De Wesley, posso dizer que não lembro de tê-lo com a expressão fechada. Está sempre sorrindo.

Há uma semana, exatamente, o sorriso deu lugar ao semblante amargurado. Pois é. Wesley errou o tiro de sete metros, Piracicaba perdeu para Itatiba por um gol de diferença e o título escapou. O rosto de Wesley resume o que aconteceu – e não foi preciso estar na quadra para perceber isso. O arremesso explodiu na trave com a força de um golpe capaz de cortar a alma do arremessador. Doeu. Duvido que pela cabeça de Wesley não tenha passado a palavra ‘fracasso’. Como encarar os companheiros e o que dizer quando seus olhos cruzarem com os deles?

Eu nunca fui atleta. Não tenho 10% do que eles têm no que diz respeito à capacidade de sacrificar-se. Porém, a profissão que escolhi me permite ‘conhecer’ o que eles vivem. E, conhecendo, questiono a espantosa capacidade que os atletas têm de negar os próprios méritos, sobretudo quando caem. É um contragolpe aplicado ao esforço diário e silencioso que eles fazem. ‘Resultadismo’, bobagem.

Levante a cabeça, Wesley. Assuma a responsabilidade do erro como ela deve ser assumida: naturalmente. A derrota é coletiva, não individual. No esporte, para um vencer, outro necessariamente tem de perder. Aconteceu contigo, acontece todos os dias com alguém. Na dor, encontre o impulso para aperfeiçoar o que não deixou de ser bom por causa de um simples erro. Fuja do comum. Renove, com esta oportunidade que o esporte te deu, o compromisso com o que o próprio esporte tem de melhor: a habilidade de superar-se. Então, você voltará a sorrir. Como sempre sorriu.

Leonardo Moniz é jornalista e editor do portal LÍDER

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